domingo, 26 de julho de 2015

O esporte brasileiro e a cultura dos milagres


Até a postagem deste texto, ainda estará sendo realizada a cerimônia de encerramento dos Jogos Panamericanos de Toronto, no Canadá, Com 41 medalhas de Ouro, o Brasil conseguiu uma média de medalhas semelhante a dos Jogos do Rio 2007 e Guadalajara 2011 e manteve-se no terceiro lugar no quadro geral. 

Desde Winnipeg 99, os Panamericanos passaram a receber uma atenção um pouco mais especial da mídia e do povo brasileiro, embora alguns feitos memoráveis em uma modalidade ou outra, como o ouro do time de Basquete de Oscar e cia em Indianápolis 87, já tenham sido marcantes. 

Ao final de cada grande evento esportivo, o Comitê Olímpico Brasileiro sai com o mesmo discurso: Haverá grandes investimentos para o próximo, grandes revelações irão surgir, e não irá demorar muito para o Brasil figurar entre as grandes potências esportivas do mundo. Guarde estas palavras, pois você as ouvirá ao fim de uma Olimpíada, e na outra, e na outra, e na outra...

Infelizmente, isso jamais irá acontecer a médio prazo, uma vez que há algo na cultura tupiniquim que é mais difícil de ser transformada do que qualquer política de incentivo ao esporte, que é a cultura do milagre. E isso legitima toda a lenga-lenga que sempre ouvimos e ouviremos no que diz respeito a esse assunto.

O Brasil sempre irá entrar nestes grandes eventos na dependência dos gênios de cada esporte que temos, o que concede a eles uma pressão injusta e surreal. A mídia os transforma em grandes heróis, mas ícones sem o direito de errar e perder. Em síntese, cremos que somos a terra dos grandes milagres esportivos, a terra que recebe, vez ou outra, seres iluminados como Gustavo Borges, Fabiana Murer, Maurren Maggi, João do Pulo, Torben Grael, Claudinei Quirino, Fernando Scherer, Ana Mozer, Daiane dos Santos, Cesar Cielo, Arthur Zaneti, Joaquim Cruz etc. Todos estes precisaram estar MUITO ACIMA DA MÉDIA para receberem incentivo e patrocínio no Brasil. A maioria deles têm histórias bem duras de falta de apoio, mas apenas seus enormes talentos tornaram possíveis suas carreiras de sucesso, não a estrutura do esporte no país e a mentalidade do brasileiro.

Os desempenhos nas Olimpíadas recentes de EUA, China, Canadá, Reino Unido, Rússia e Coréia do Sul dão a vaga ideia de que os Jogos Olímpicos poderiam ser coisa apenas de primeiro mundo, mas se assim fosse, Cuba não superaria o Brasil na maioria das vezes. Nestes Panamericanos, muitas destas delegações competem com atletas universitários e ainda assim atingem resultados bem satisfatórios. Mas em nível mundial, o Brasil sempre fica abaixo do vigésimo lugar. 

Nos EUA, alguns torneios esportivos universitários são televisionados e possuem tanto prestígio quanto os profissionais. A peneira do basquete começa nas escolas e fica fácil entender porque eles são imbatíveis neste e outros esportes até hoje. 

O Brasil ainda continua com o pensamento arcaico de quem faz o esporte são os clubes, e por isso continua na inteira dependência dos gênios que surgem vez ou outra. Este conceito valia nos anos 30 quando a prática do esporte era tida como atividade para vagabundos, atletas eram mal vistos pela sociedade e era impensável a ideia de um pai que aceitasse entregar sua filha em casamento para um jogador de futebol.  

Hoje esse conceito nos colocou muito aquém do ideal esportivo. Muitos dirão que este tipo de investimento não é válido, que o Brasil tem outras prioridades e que o esporte não é uma coisa urgente em um país tão cheio de problemas sociais. Discordo. 

A prática esportiva está presente há mais de dois milênios na humanidade, é usado como ferramenta para trabalhar o caráter do indivíduo, tira crianças do crime, reduz as taxas de obesidade e é capaz de integrar pessoas e nações. Sem mencionar que seria um ótimo meio de tratar a crescente incapacidade de relacionamento de crianças e adolescentes em função do vício nas mídias sociais.

O que aconteceria se todas as escolas públicas tivessem um projeto unificado de esporte, onde grandes pérolas pudessem ser descobertas? Tenho medo de pensar na quantidade de talentos que o Brasil deixou de revelar e permitiu que perecessem no anonimato nestes últimos 100 anos de história. O número certamente é muito triste.

Em resumo, o Brasil não leva seus melhores atletas para os eventos esportivos: Ele leva os melhores que foi capaz de encontrar. 

Se assim fosse, teríamos delegações muito maiores nos eventos, os brasileiros não iriam torcer apenas para um herói solitário. Teríamos competitividade interna o suficiente para não ficarmos na ilusão de grandes nomes esportivos, como se fossem escolhidos, especiais e predestinados , mas conscientes de que temos vários atletas competindo em alto nível.














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