sábado, 17 de outubro de 2015

O medo da solidão e suas loucuras



É provável que algumas pessoas tenham levado muito ao pé da letra a canção de Tom Jobim que dizia "É impossível ser feliz sozinho." Nosso país tropical possui uma atmosfera que combina com quase tudo: nosso clima, nossas crenças, nossas músicas só não se harmonizam em nada com uma vida solo. Sim, é preciso ser "de dois", como diriam alguns compatriotas em seus costumes de linguagem.

É curioso observar o tipo de loucuras que as pessoas cometem para não terem que ficar sozinhas. Infelizmente vivemos só uma vez, é verdade, mas procuro a razoabilidade de alguém que resolve sufocar seus sonhos em nome de um medo patológico de envelhecer e morrer sem se casar. 

Honestamente, creio que este medo de morrer solteiro seja infinitamente menor do que o medo de não atender as demandas de uma sociedade que tanto lhe cobra isso. O problema não é o desejo de ter uma pessoa para lhe fazer companhia, ter filhos, formar um lar, o que considero ser o anseio mais belo e nobre do ser humano, o problema é o que a pessoa é capaz de se submeter em nome disso.

O assombro de não ter ninguém ao seu lado durante os anos de fertilidade faz com que muitos se casem mal. Isso mesmo: muitos aceitam um casamentinho mais ou menos para bradar ao mundo: "Não sou feliz, mas me casei. Engula essa, sociedade!" Lamentavelmente esta vaga ideia de redenção em breve se perderá em uma vida oca e dramática ao lado de alguém que nunca amou e jamais lhe despertou nenhum entusiasmo e encanto.

Por mais contraditório que isso possa parecer, são justamente estas pessoas que mais tentam se meter na vida sentimental dos que ainda são solteiros. Eu nunca me senti cobrado ou incentivado a casar correndo feito um desesperado com a primeira mulher que aparecer por gente bem casada, apenas por gente cujos vizinhos testemunham o som de suas panelas voadoras na calada da noite.

Curiosamente são estes os que tentam fazer você se sentir inferior por estar sozinho e desmerecem a sua condição de vida, que muitas vezes pode ser muito mais digna do que a de alguns que escondem as lágrimas derramadas no banheiro, a bebida para anestesiar ou sufocam o gemido com a infidelidade de um cônjuge que lhe oferece algo que já estava no script, mas que se recusava a enxergar antes, quando a visão estava comprometida pelo medo de enrugar, de ficar careca, de ver todos os primos casando na frente ou até mesmo de ver os sobrinhos se ajeitando. Alguém precisa se levantar para dizer que NÃO É UMA CORRIDA. Os mal casados um dia pensaram que era.

"Não é bom que o homem esteja só", é verdade, a Bíblia não mente, mas as pessoas nem sempre são honestas com seus sentimentos e quando você escolhe se casar sem a segurança necessária do que representa aquela pessoa pelo resto da vida ao seu lado você condena outro alguém a assinar um contrato para uma vida de engano. E a motivação disso tudo foi apenas o seu medo mórbido de ficar sozinho. E isso não soa muito justo.

Talvez eu nunca me case. Não pela falta de vontade porque tentativas é o que nunca faltaram. Não por frustrações passadas porque, afinal, passado é passado e não parece inteligente esperar atitudes iguais de pessoas diferentes em contextos diferentes. Só o que não podemos é nos perder na ilusão de que o casamento é uma linha imaginária que separa as pessoas felizes das infelizes, mas que nos unamos a outrem por um sentimento genuíno, incomparável, insubstituível, racional sem deixar de ser belo e humano sem deixar de ser Divino.