"Logan, this is what life looks like, people who love each other, a home. You should take a moment, feel it".
Esta frase do Professor Xavier no filme "Logan", da FOX, diz respeito ao momento em que eles estão sendo recebidos por camponeses em um lugar seguro e aconchegante, em meio a uma dramática perseguição dos vilões da trama no Norte dos Estados Unidos.
Durante o filme, Wolverine se vê solitário como nunca antes em sua vida e assume em definitivo sua condição de animal solitário, por conta de tantas perdas e um histórico melancólico de pessoas que ele amava que viu sendo mortas com certa frequência.
A ele não lhe restava outra coisa senão o isolamento, por entender que sua existência por si só já machucava pessoas próximas a ele, além de ter uma mutação ingrata que o fazia não envelhecer como as outras pessoas, o que fatalmente aumentava suas chances de terminar a vida sozinho.
Na vida real não há mutantes e nem todas as pessoas têm sangue nas mãos por uma vida de lutas, mas nem por isso é impossível chegar ao ponto de uma vida semelhante a de um animal, movido pelos instintos e sem os cuidados de terceiros, tornando-se cada vez mais defensivo e escorregadio, recusando-se a receber carinho. O medo da aproximação de outros seres e a fuga podem ser características também de uma pessoa. Sim, a solidão pode nos deixar muito parecidos com um animal perigoso.
A solidão é uma coisa estranha. Na verdade ela não foi feita para nenhum ser humano, mas é bem verdade que alguns podem não ter a mesma saída.
Após tanta dor, decepções e derrotas, parece natural que o medo nos torne menos humanos e a aproximação de outros seres humanos se torne uma grande aventura. O fato é que a maior parte das pessoas vive tanto tempo cercada de outras pessoas que poucas sabem de fato o que seriam estes instintos de temor que a vida solitária causa.
Eu já moro sozinho há quase 4 anos. Desenvolvi estranhamente uma pequena fobia de estar perto de muitas pessoas por muito tempo. Reconheço que isso vem muito de questões relacionadas à minha auto-estima em parte, mas o fato é quanto mais tempo você vive sozinho, mais você aprecia isso por um lado, mas por outro, você se sente uma pessoa a cada dia menos gostável.
Talvez seja um medo muito parecido com o do Wolverine de machucar as pessoas ou vê-las sendo machucadas, ou simplesmente vê-las saindo da sua vida. Começa a parecer fazer sentido que sua participação na vida das pessoas não é de todo muito positiva, considerando que tantas já foram embora dela sem dar muita explicação.
Chega uma hora que você não quer mais se aproximar das pessoas. Nem para ser infeliz nem para fazer ninguém infeliz. E este último temos acaba sendo o mais viável e fácil de acontecer.
O fato é que a vida adulta não é nada fácil. Carregamos marcas de toda sorte. Nossas feridas estão na alma e nos inibem a viver uma vida na plenitude do que poderíamos.
Chega uma hora em que não há mais família, não há mais telefonemas, não há mais pessoas procurando saber como você está e a impressão de que a sua participação na vida delas é dispensável a certo ponto. Não se ver fazendo a diferença na vida de ninguém é o primeiro e mais duro estágio da solidão: a hora de perceber que não é mutante mas adquiriu o poder da invisibilidade.
Em momentos tão dramáticos da sociedade, como agora no Brasil com tantas pessoas desempregadas, frustradas em seus projetos de vida, é bem verdade que esta condição de animal se prolifera em grande proporção.
